So a cabecinha
Uma das tarefas mais difíceis de ser criança é ser a irmã caçula. Principalmente quando seus irmãos têm 4 e 5 anos a mais do que você. Quando a gente é criança, 4/5 anos é uma eternidade. Imagine que quando meus irmãos tinham 8/9, eu tinha 4 - praticamente um bebê. Eles eram da mesma geração e tinham os mesmos amigos. Eu era a pentelha, que queria muito participar da brincadeira. Simplesmente um saco. Por conta disso, desenvolvi um monte de manias esquisitas. Tinha amigos imaginários e até hoje tenho o hábito de falar sozinha. Adoro monologar.
Uma das brincadeiras preferidas da galera era “As Panteras”. Cada uma das amigas da minha irmã era uma das personagens do seriado. Os amigos do meu irmão, os bandidos. Quando ninguém queria ser a Sabrina eu entrava em cena e elas fingiam que me deixavam brincar. Eu também podia ser o Bosley, mas era meio monótono participar só do começo da brincadeira. Quando brincavam de casinha eu era a empregada. E lavava cada panelinha feliz da vida.
Um dia minha avó me deu uma boneca linda, loura, dançarina de flamenco com um vestido vermelho com fenda e renda preta. E boneca nova a gente nem penteava muito para não transformar os cachos em bombril de nylon. Eu tava bem feliz brincando com a boneca nova e minha amiga imaginária quando a minha irmã chegou inexplicavelmente sorridente, me convidando para brincar com elas. Dei um peteleco na amiga imaginária e fui toda feliz. Era bom demais. Na verdade, elas queriam propôr um negócio: me deixavam brincar se eu emprestasse minha boneca para uma das amigas. Putz, minha boneca nova. Mas era o melhor que elas podiam me oferecer. Pegar ou largar. Eu larguei a boneca, feliz.
Daí, percebi que tinha alguma coisa errada: se eu tinha que emprestar a boneca porque estava faltando uma, com o que eu iria brincar? Minha irmã, tão amável, logo me mostrou a solução: enquanto a amiga dela estraçalhava os cachos da minha boneca nova com um pente, eu brincava com uma cabeça de Susi quase careca e com a boca riscada de caneta Bic enfiada no dedo indicador. Foi uma tarde inesquecível.
