12 de set de 2016

Silvio Santos está com AIDS

Podem contar isso por aí. Falem para a família, para os amigos, espalhem que me acharam abatido, que me viram tomando muitos comprimidos e que eu admiti, na gravação do meu programa, que estou com AIDS.
(silêncio)
Assim ninguém vai querer comer a minha mulher.
(gargalhadas)
Foi com essa e outras piadas de tiozão que ele quebrou o gelo com o auditório, minutos antes de começar a gravar o programa, por volta das 11 da manhã, no estúdio 3 do SBT. Quebrar o gelo era necessário porque as caravanas chegaram 4 horas antes e a espera só faz a ansiedade aumentar.
Comecei a fazer minhas primeiras anotações às 7 e meia da manhã do dia 12 de setembro de 2015. A sala lotada de mulheres (apenas mulheres) alvoroçadas, tirando fotos, escovando os cabelos, retocando a maquilagem e comendo o lanche ultra reforçado que recebemos na entrada. Pela quantidade de comida dava para ver que ia demorar, então achei melhor ir anotando.
Não existe mulher feia. Existe mulher que não conhece os produtos Jequiti. Isso escrito numa cartolina branca colada na parede e a mistura de dezenas de perfumes muito doces no ar, mostravam que a maioria ali já conhecia e usava o perfume das estrelas. E o desconforto com tanto perfume me mostrava que aquilo era real, eu estava mesmo lá, não era só um sonho estranho.
Uma pessoa da agência de publicidade em que eu trabalhava combinou minha ida com alguém do SBT. Mas em vez de ficar esperando nos bastidores, meu objetivo era entrar com as caravanas e fazer amigas. Contei logo para a mais falante das redondezas que era a primeira vez que eu vinha a um programa de TV. “Que sortuda você é. Seu primeiro programa foi logo o do Silvio. É o melhor programa do Brasil e eu digo porque já fui a todos. O SBT é minha segunda casa. E já vou te dar uma dica de veterana: quando ele lançar o aviãozinho de dinheiro, se joga. Nas primeiras vezes a gente tem vergonha e não brinca. Mas sair daqui sem nada, ninguém merece”. Todas concordam e mostram que não existe a possibilidade de saírem dali sem algum dinheiro. Quando me perguntam de que caravana eu venho, invento rápido que uma amiga trabalha no SBT e colocou meu nome na lista de convidados. Uma delas diz: que chique! Eu, me desculpando pelo privilégio, digo: chique nada... Ela me interrompe: Você, não. Sua amiga é chique. Ela trabalha no SBT. (Juro que tomei este “prestenção”)

Quase 200 mulheres tinham que passar pela maquilagem e pelo cabeleireiro antes de ir para o estúdio. A maioria não via a hora de fazer a make e realçar o cabelão. Uma pessoa avisa pelo microfone: quem quiser topete, é só pedir, bico de pato e presilha não são permitidos porque vocês podem se machucar. Muitas fazem cara de que é claro que vão querer topete. Quando chega a minha vez, vejo com receio a biba colocando uma mão cheia de mousse no cabelo da senhora ao lado. Decido perguntar baixinho: posso não fazer nada no meu? Ela responde mais baixinho ainda, quase sem mexer a boca: pode mas deixa eu fingir que vou fazer alguma coisa. Então eu percebi que aquilo era uma maneira muito gente boa de fazer com que ninguém ficasse menos arrumada ou penteada na plateia. Quando voltei para as minhas amigas escovadas, com topetes e laquê, uma delas notou: você não fez nada no seu cabelo? Eu, de novo sendo a simplona, falei que no cabelo cacheado não tinha muito o que fazer. Ela respondeu: Verdade. Esse seu cabelo é dureza. (Sim, tomei de novo)

Todo mundo entra com o nome visível num crachá para facilitar a vida do Silvio. A moça do microfone chama por ordem alfabética e a pessoa vai buscar o seu. Eu era a única Flavia mas a letra J deu uma empacada: Jecica com C. Jessica com 2 ésses. Jesycah com Y e H no final. Jessika com K.
Lá estava eu, identificada, simplona, da turma, discreta, mas com intenções ambiciosas para aquele evento: não saio daqui sem uma foto com o Silvio, vou trocar ideia, ser participativa, adivinhar a música, falar algo espirituoso no microfone, catar aviãozinho de dinheiro e depois colocar numa moldura. Acontece que, a partir do momento em que nós fomos instruídas a sacudir nosso pompom colorido e gritar Silvio, Silvio, Silvio (nenhuma palavra a mais e sem bater os pés no chão), eu simplesmente travei. Vamos sorrir e cantar? Bem que eu gostaria, mas Silvio Santos entrou, eu comecei a rir de nervosa e não parei mais. Gente, como ele está velhinho. Claro que isso é peruca. De cabelo de nylon, de boneca. Quanta maquilagem. A gravata tem glitter. Nada disso se nota na TV. É tudo cenográfico. A câmera liga e o personagem vem com tudo, animado, safado, rindo sem parar. Quando corta, Abravanel fica sério, concentrado e faz um movimento repetitivo com a boca, como se mastigasse a dentadura. Certeza de que eu também estava mastigando a dentadura de tão passada que fiquei. Não vou conseguir fazer nada do que imaginei. Ferrou. O negócio é olhar para tudo, testemunhar aquelas pessoas voadoras, caindo umas sobre as outras por uma nota de vintão. E rir até a parte de trás da cabeça começar a doer.

O cara brilha sem parar, tira sarro das duas misses gaúchas convidadas sem que elas percebam. Faz comentários sedutores para as mais decotadas da plateia. Lê em voz alta um cartaz que diz: SE O SEU SOBRENOME É PINTO, NÃO COLOQUE O NOME ISADORA NA SUA FILHA. Ele ri alto. Eu também. Poderia dizer que foi só alegria mas o que realmente chama a atenção é a gentileza. A produção consegue deixar todo mundo muito à vontade e muito feliz de um jeito competente e muito simples. Por algumas horas, o SBT é mesmo a segunda casa delas. O programa não é um sucesso há 53 anos por isso. Mas tenho certeza que isso faz parte da fórmula.
Quando tudo indica que acabou, Silvio já saiu, outra pessoa da produção pergunta se alguém tem alguma nota rasgada? Claro que sim, muitas delas levantam o braço porque disputaram aquelas notas até as últimas consequências, até desfazer os topetes. Então a produtora explica onde elas passam para trocar suas notas picadas por outra inteira. Aos poucos todo mundo vai embora e eu fico sentada, ainda anotando coisas. Peço ajuda para chamar um táxi mas o guardinha me arranja prontamente uma carona no fretado dos funcionários até a estação Barra Funda. Fofo. Tudo.

Fui ao programa há exatamente 1 ano. Queria ter escrito logo depois. Terminaria o texto dizendo que, depois disso, achava que já tinha feito tudo o que queria em São Paulo. Claro que era brincadeira mas, dois meses depois, começou o movimento que me fez mudar para Florianópolis. O final de um ciclo de 15 anos marcado por Silvio Santos é muito a minha cara.

6 de mai de 2016

Timing é tudo

Estavam no auge da paixão quando decidiram fazer uma reforma na casa. Construir um recanto aberto mas, ao mesmo tempo, reservado, com uma jacuzzi enorme. Estavam pensando em safadeza, claro. E já que vai ter obra, vamos fazer um negócio “profi”. Contrataram uma arquiteta badalada, viram que ia sair caro mas que ia ficar tão bom que as revistas de decoração fariam fila para fotografar. Investiram uma grana preta mas, mesmo assim, a obra teve que ser feita por partes. Primeiro o piso XPTO, depois o teto retrátil, o pergolado, a parede com paisagismo, tudo de super bom gosto. Demorou muito mais do que eles gostariam. A ponto dos filhos pequenos crescerem, de um deles ter problemas com crack e causar uma angústia tão grande que acabou por desgastar até a relação do casal. Estavam tratando do divórcio e de todas as raivas, mágoas e chateações envolvidas nessa parte quando chegou o caminhão para fazer a entrega da Jacuzzi gigante.
A parte mais importante da reforma dos sonhos chegou quando já não fazia mais o menor sentido.

Tudo isso foi uma metáfora.
Sobre o Brasil conquistando, em 2009, a honra de sediar as Olimpíadas. Sobre o tempo passando e tudo o que sabemos que aconteceu, acontecendo. Sobre a pobre tocha, que chegou justo no momento mais lamentável.