7 de ago de 2006

Por gentileza: feio mas feliz

Eu sou fã de carteirinha do programa Extreme Make Over. Acho que eles fazem um bem enorme pelas pessoas tenebrosas do mundo. Eles têm a manha de escolher quem realmente precisa, até por motivos de saúde, fazer alguma coisa pelos dentes péssimos, pelos narizes caroçudos e pelas papadas moles.
Não, eu não tenho preconceito com gente feia. Bem que gosto de um feio. Mas não deixa de ser um bem para a humanidade deixar pessoas muito feias mais aceitáveis.
Tirando a parte que eles mostram closes da cirurgia em si, que eu não olho senão desmaio, e o fato de que todo mundo fica com o mesmo sorriso branco-até-demais-para-o-meu-gosto, acho que eles são muito bons. O programa é uma ótima idéia e um sucesso tão grande, que todo mundo já deu um jeito de copiar. Inclusive os canais de TV brasileiros.
Mas acompanhe meu raciocínio: o que realmente dá audiência no Brasil são aqueles quadros em que a produção escolhe alguém com uma vida miserável, dá um banho de loja, um tapa na peruca, compra uns dormitórios capelinha, faz uma vaquinha com os patrocinadores e pronto: sacode a vida do sujeito. Só que isso demora horas, rios de lágrimas para acontecer. E o da poltrona fica ali, catatônico, ouvindo todas as mazelas das vidas alheias até ver o desfecho no palco.
Pois muito bem. Já que não dá para abrir mão do que dá audiência (a choradeira) nem do que todo mundo está vendo (as transformações radicais), os brasileiros decidiram simplesmente unir os dois formatos. Eles pegam o feioso, contam a história triste da vida dele, fazem o povo chorar muito e transformam a aparência da figura. Uma coisa 2 em 1. É louvável mas pode dar problema.
Imaginem a cena do pobre-diabo, já a caminho da sala de cirurgia, com o rosto todo pontilhado. Ele dá um último telefonema. A tela se divide ao meio: de um lado a família desvalida, chora compulsivamente. Do outro, o feio também chora e diz: “eutiamo, Joengride”. As lágrimas escorrem pelo rosto pontinhado. O nariz escorre pelo rosto pontihado. Na hora da cirurgia, cadê o pontilhado? Apagou, borrou, escorreu com as lágrimas.
Os cirurgiões se olham, coçam a cabeça e um deles pergunta:
- Você lembra onde era mesmo a incisão?
- E o lifting? Era mais no canto ou mais no meio da pálpebra? Esse olho não tá meio inchado? Tiro ou não tiro a bolsa?
O resultado, você pode ver todos os domingos na TV aberta. E é de chorar.

Um comentário:

Carla Melani disse...

valeu!e lembrei do dramático apelativo quadro no domingo "de volta para casa",coisa de Gugu,pega povo do nordeste que foi para Sampa e se deu mal.fazem arrumar as "coisinhas" que sobraram,fretam um caminhão e devolvem os miseráveis à terrível humilhação de voltar a terra como fracassados...e a vida segue...bjs