21 de out de 2013

Toda pink

Tem gente que assiste Jornal Hoje ou lê alguma Revista Caras do ano passado. Eu observo cada ser vivo existente na sala de espera do médico.
O ouro está sempre em algum ponto entre a orquídea comprada no Pão de Açúcar e a recepcionista, por quem nutro uma estranha e sincera inveja. Normalmente sacrifico meu horário de almoço para estar ali e penso em como seria mais simples a vida se meu trabalho fosse ficar atrás de uma mesa, das 8 às 16h, atendendo telefonemas, organizando uma agenda e falsificando a assinatura de alguém para o recibo do reembolso.
Desta vez, quem brilhou e ganhou toda a minha atenção foi a perua que decidiu fazer uma ligação importante mas não confidencial. O que todos percebemos pelo tom de voz no celular.
Oi, eu queria encomendar um bolo de aniversário para minha filha. Ela é uma “It Girl”, toda pink. Para você ter uma ideia, o apelido dela é “Diva”.
Foi nessa hora que eu peguei meu caderno e minha caneta na bolsa e comecei a transcrever o que vem a seguir.
Eu sei que bolo agora é naked, talvez vocês achem muito clichê, mas pensei num bolo em formato de bolsa ou de uma menininha toda loira, toda pink. Mas não bolsa Chanel, que eu já enjoei. Aquela mulher (Coco Chanel, suponho eu) precisa se mexer (!!!), mudar alguma coisa (??). Sério… Pensei numa Valentino. Posso mandar fotos das minhas para vocês se inspirarem mas elas são todas pretas e, para ela, precisa ser (adivinha) super pink, super menininha, que ela se veste super bem, toda na moda, toda bonitinha. As bolsas dela são mais da Hermès, que ela usa atravessadas, super fofinha. Mas eu queria Valentino. Tudo menos Chanel. Afe (num tom de eca). Ela faz 19 anos (tomei um susto porque imaginei uma menina-toda-pink com, no máximo, 10). Vai ser uma surpresinha. Bebida? Champagne (claro, hello!). Tá ótimo este preço. Meu marido está viajando. Ele volta quinta dos Estados Unidos. (isso foi dito assim, do nada mesmo. Só para constar.) Ai, que bom. Vocês são ótimos. Obrigada.
Então ela olhou para mim, sorriu e disse: Pronto.
Provavelmente aquilo queria dizer que tudo o que ela tinha para fazer naquele dia estava feito. Ao contrário de mim que, além mofar mais 40 minutos e voltar para o trabalho, agora também precisava chegar em casa e escrever isso.

13 de jul de 2013

Para Cora, com todo o meu amor.


Desde que me conheço por gente uma escadaria pode virar palco, a lâmpada que ilumina o arbusto da praça vira holofote do meu show, caixa de papelão e lanterna se transformam em teatrinho de sombras. Tive amigos imaginários, cheguei a acreditar por um tempo que era a Emília do Sítio do Picapau Amarelo e esse negócio de faz de conta sempre funcionou muito para mim. Em parte porque criança é assim mesmo. Mas muito e definitivamente porque eu tenho a Cora.
Minha tia, fada madrinha, inspiradora, a melhor contadora de histórias do mundo que eu e meus irmãos tivemos a sorte de ter sempre por perto. Acho difícil lembrar de momentos da nossa infância em que ela não estava. Colada na gente.
Ela entendia a riqueza e a fertilidade da nossa imaginação. Mais do que isso: ela amava estar na nossa companhia e adorava a maneira como a gente acreditava na realidade revisitada por ela. Ela escolhia um tema, enfeitava, colocava purpurina, cobria com calda de chocolate e a conexão com a gente acontecia sem forçar barra nenhuma. Desenhava, pintava quadros, cantava, fazia comentários ácidos, cozinhava mal, escrevia. Afe, como ela escrevia.
As histórias dela eram mais interessantes do que a dos livros (que ela também nos ensinou a adorar) porque a gente ouvia enquanto ia bisbilhotar pessoalmente a casa da bruxa malvada. Ela nos colocava no fusquinha creme (que hoje eu tento imitar) sem cinto de segurança, pegava uma estrada de terra e parava perto de uma cerca de onde a gente podia observar uma casa de madeira cinza escuro. Lá vivia uma velhinha com uns 40 gatos. Brigilda era o nome da bruxa. E a gente ficava ali de tocaia até vê-la saindo pela porta. Nessa hora ela ligava o carro, acelerava e a gente fugia com o coração saindo pela boca.
Foram tantas e tantas histórias. E nunca houve sequer uma piscadela de olho ou qualquer sugestão de que aquelas coisas não eram a mais pura verdade.
Só no ano passado ela mesma me revelou que a bruxa era uma senhora que fabricava flores artificiais. Que as flores de pessegueiro eram lindas e ela mesmo encomendava de vez em quando. Acho que isso foi a única coisa que eu jamais poderia imaginar sobre a Brigilda.
Todo o resto eu imaginei. E se hoje eu desconfio que sei escrever e que consigo olhar para a realidade de uma maneira mais colorida ou, às vezes, muito mais escura, tenho certeza de que é pura influência dela.

Ontem uma grande parte da minha alegria e de tudo o que eu sou desapareceu. Vai dar um trabalhão começar a imaginar e inventar um jeito de viver sabendo que a Cora não está mais aqui.