6 de mai de 2015

Trabalho dos sonhos

Cheguei ao consultório do cirurgião plástico em cima da hora. Notei que a sala de espera tinha 6 sofás. Muito, se comparados às 2 ou 3 poltroninhas que a gente normalmente vê em outros médicos. Mas antes de começar a refletir sobre a crescente indústria da cirurgia plástica e a obsessão das pessoas pela eterna juventude, fui chamada pela secretária. Era minha vez, sem atrasos. Profissa.
Fui recebida por um sorriso branquíssimo que quase ofuscou a inegável simpatia do cirurgião. Mas logo reparei que, enquanto falava comigo, ele olhava fixamente para um ponto. Ou melhor: para a ponta do meu nariz.
Era como se, no meio do meu rosto, houvesse uma verruga gigante, preta, volumosa, peluda e falante. E digo isso porque quando uma dessas aparece na minha frente, eu mesma não consigo desviar os olhos por nada. Eu tentava mudar o foco, contava que a Fulana me indicou mas tenho certeza de que ele nem ouvia. Estava hipnotizado pelo meu nariz exótico e avantajado, fazia traços pontilhados e imaginários sobre ele, queria mudar tudo, que eu sei.
Nem vem que não tem. Como é que eu poderia abrir mão de uma parte tão grande do meu rosto? Eu simplesmente não seria eu sem o nariz fino, pontudo e com calombinho. Não nasci com ele exatamente assim mas, desde que estética começou a ter importância na minha vida, tive que aceitá-lo. Entender que ele me dá personalidade. E que na falta daquela beleza, beleza, beleeeeeza, personalidade é importante para dedéu. Depois de tudo o que eu passei para aceitar minha napa assim como ela é, o cara acha que vou me acovardar e resolver tudo com umas marteladas e passadas de bisturi? Never.
Tratei de explicar logo e sem dó que estava ali para reconstruir o ló-bu-lo-da-o-re-lha, que se rompeu pelo excesso de brincos grandes e pesados que usei a vida toda. Mas de grande e pesado ele só via meu nariz. Claro que não ousou sugerir que eu me detivesse no ponto equidistante entre os lóbulos das duas orelhas, que isso seria uma indelicadeza de se fazer. Mas sei que ficou decepcionado quando viu meu lóbulo tão pequeno, com um rasgo insignificante diante de todo o universo nasal a ser explorado.
A anestesia é local, né? Vai que eu apago Rossy de Palma e acordo Danielle Winits.
Enfim, “cirurgia” feita, trabalho perfeito, lóbulo reconstruído, efeito da anestesia passou e nem senti dor. Acho até que vou dormir bem. Já ele, coitado, vai sonhar.

*Lá em cima, Desenho da cabeça humana by Leonardo da Vinci.