29 de out de 2008

Gente que anota

Se alguma coisa que me faz rir, anoto na hora para não esquecer. Sempre acho que pode ser útil um dia. Não só anoto como tenho um caderno onde reescrevo e organizo tudo. Ele parece aquelas agendas de meninas adolescentes, que já não fecha de tantos papéis anexados. Abri ontem o meu caderno e me deparei com várias coisas divertidas, que eu nem lembrava, e me agradeci muito por ter anotado. Os próximos dois posts vieram de lá.

Meu amigo taxista

A partir do momento que a porta do táxi é fechada, cabe a você decidir se vai ficar olhando pela janela ou bater um papo com seu novo amigo íntimo. Tem gente que acha chato mas eu normalmente opto pelo papo. Meu sotaque sempre dá início ao assunto. Você é do Sul? Eu tenho um amigo/parente em Porto Alegre (sempre). Você está passeando ou mora aqui? Moro. Então está acostumada com o trânsito? Marginal nesse horário é um inferno, mas teve um dia que eu fiquei preso aqui por causa de um temporal e fiquei até emocionado. Sério? Por que? No que começou a chover este Rio Pinheiros ficou todo coberto de garrafas plásticas. Que coisa linda, parecia uma pintura. ( ! )



Mais, só sobre o tema tempestades em São Paulo:

Taxista fala: Quando começa essa chuva forte eu fecho bem a boca. Por que? É que eu tenho muitas obturações e quando cai raio, meus dentes doem.

Final de ano. Na volta do Reveillon, com chuva, eu pego um táxi para casa, desejo feliz ano novo, pergunto como foi a comemoração. Ele responde: 
Ah, mas essa cidade alagou toda. Metros de água. Azar teve a minha vizinha que viajou e deixou o cachorrinho preso na garagem. Caramba, e ele morreu afogado? Não. Era de pelúcia. E soltou uma gargalhada.

Alguns minutos depois ele recomeçou:

Mas você tem um sotaque que não é daqui. Sou do Rio Grande do Sul. Putz, eu não gosto dos gaúchos. Ué, por que? Prefiro as gaúchas. E soltou outra gargalhada.
Alguns minutos depois ele pergunta:
Muita confusão no aeroporto? Até que não. Você deu sorte de chegar agora. Lá pelas 2 da tarde teve um tumulto danado aqui. Eram 4 seguranças tentando algemar um coreano e não conseguiram. Por que? O que ele fez? Nada. Ele não tinha os dois braços. E soltou outra gargalhada.

As piadas eram tão infames que eu caía como uma pata em todas. Genial. Quando chegamos em casa ele falou: desculpe as piadas. Imagina, eu adorei. Então paga o dobro. E soltou uma gargalhada.
A última. Chega, né?

Um homem para chamar Dirceu

Coleciono músicas que as pessoas entendem errado. Tenho umas 100 anotadas e o mais legal é que o erro sempre faz sentido. Quando as pessoas descobrem que a música não era do jeito que elas cantavam aos berros, rola até uma certa decepção. Eu sei que tem até um site sobre isso, mas estas são dos meus próprios amigos. Olha que espetáculo:

- Top Lassie na areia virando sereia.
Música da Marina Lima. O correto é top less na areia. Mas ela falava “lesse” mesmo. Meu amigo entendia que a cachorra Lassie ia virar um peixe. Fofo.

- Joana D’Arc morreu na beira da praia.
Esta é um pagodão que dizia Vou nadar e morrer na beira da praia. Esta, além de surda, é burra.

- Morto na Delegacia de Marília.
Música do Djavan. O correto é Morto na beleza fria de Maria. Mas a pessoa é do interior de São Paulo e sabe que a cidade de Marília tem uma delegacia barra pesada. Adoro essa.

- Scooby Doo dos sete mares, navegar eu quero-uuu.
Música do Lulu Santos. O correto é descobridor dos sete mares. Meu amigo achava que o uuuuu do final era o Lulu imitando o uivo do Scooby.

- Diga, que já não me quer. Mégui, que me pertenceu.
Música Negue, cantada pelo Ney Matogrosso. O correto é Diga que já não me quer, negue que me pertenceu. Meu amigo entendia que Diga e Mégui eram o nome de duas mulheres.

- Homem que mata, está fazendo bobagem.
Dos Titãs, Homem primata, capitalismo selvagem. Mas que matar é uma bobagem, isso é.

- Entrei de caiaque no navio. Entrei, entrei, entrei pelo cano.
Sabe qual, né? O caiaque é fininho e passaria pelo cano se o navio fosse dos grandes, ora.

27 de out de 2008

Oferenda

Sábado passado eu conheci uma pessoa desprezível. E eu posso falar mal à vontade porque tenho certeza que ela nunca vai ler o meu blog. E mesmo que lesse, não teria capacidade intelectual para se reconhecer do jeito que eu vou descrever. Esta pessoa entrou de penetra na festa de casamento em que eu estava. E o pior: usando um vestido igualzinho ao meu. Quando eu vi isso, já comecei a ficar puta e antipatizei imediatamente com ela. Acontece que a criatura era tão insuportável que viu a “coincidência” do vestido e colou em mim. De perto ela era ainda pior: sem nenhuma auto-estima, burra, repetitiva, não sabia dançar direito, era incapaz de fazer um comentário inteligente sequer, não entendia as piadas, as pessoas tinham que repetir tudo para ela entender. Um saco. Eu fiquei tão incomodada com aquela presença, que me retirei. Era eu ou ela. E eu preferi vazar por pura falta de paciência. Porque se tem uma coisa que eu não suporto nessa vida é mulher que se faz de vítima e não se dá o devido valor.
No dia seguinte ela foi a primeira pessoa em quem eu pensei quando acordei. Tomara que ela já tenha ido embora. Mas quando desci para tomar o café da manhã da pousada ela estava lá, sozinha num canto.
Então eu fiz uma coisa maquiavélica. Aproveitei a insignificância daquela criatura, aproveitei o fato de que ninguém notava mesmo que ela existia e levei ela para a praia. Chegando lá, eu a convenci de entrar comigo no mar. Ela, otária, nem desconfiou de nada. Assim que eu tive a primeira oportunidade, afundei a cabeça dela com as duas mãos e fiquei esperando ela se afogar. Eu me preocupava com questões práticas do tipo: esse monte de cocô vai boiar, as pessoas vão encontrar o corpo. Mas ela era tão pequena, tão ínfima, mais transparente que uma água-viva. Certeza que ninguém ia ver nada. Ela se debateu por algum tempo mas era tão fraca que eu esmaguei aquele pescoço com uma mão só. Joguei para Iemanjá como quem joga um sabonete vagabundo na festa do Reveillon. Então eu me deitei no sol e fiquei pensando que aquele tipo de oferenda, Iemanjá ia acabar devolvendo. Mas não. Ela levou mesmo. Esta foi para nunca mais voltar.

16 de out de 2008

Significa

Eu sou fã de carteirinha do programa do Ronnie Von na TV Gazeta. Me divirto muito, especialmente quando ele olha para a câmera, fica olho no olho com os telespectadores e fala:
- E você, bonitinha, não sai daí de jeito nenhum que eu já volto.
Chamar a mulherada de bonitinha é gênio.
Descobri outro dia que ele lançou uma gíria nova para chamar uma pessoa de gay. Eu já tinha ouvido a gíria, mas não sabia que a origem era o programa do Ronnie, o que só torna tudo ainda mais do caralho. Olha isso.
Tem uma parte do programa em que Ronnie dá uma de conselheiro, lendo cartas do público sobre relacionamento, vida sexual, etc. Ele lê a seguinte pergunta:
“Ronnie, sou solteiro e há algum tempo atrás fui numa festa do amigo de um amigo meu, que eu não conhecia. Quando chegamos, fomos apresentados e, desde então, não consigo tirar ele da minha cabeça. Estou muito confuso. Isso significa que eu sou gay?”
Imediatamente, sério e sem tirar os olhos da fichinha, ele responde: Significa.
Então, se você ouvir por aí que Fulano de Tal significa, isso quer dizer que ele é gay. E quem inventou a expressão foi o Ronnie Von. Sensacional.

Veja a cena no Youtube, pinçada do Top Five do CQC.

14 de out de 2008

Os trinta de Luciana

Hoje a minha amiga Lu chegou finalmente àquele lugar que eu tanto falo, faço propaganda e me gabo. A casa dos 30.
Quando eu fiz 30 anos, lembro das minhas tias e da minha mãe suspirando e sorrindo entre elas, como quem diz: que sortuda é a Flávia. Trinta anos. Eu reagia como a Lu, quando eu falava sobre isso para ela: curiosa, mas achando que ali tinha um certo exagero. A minha sensação de ter 30 começou aos 29. Logo depois de terminar um relacionamento ótimo, longo, que tinha tudo para virar casamento. Então eu percebi que não tinha tudo coisa nenhuma. Que tudo era aquela sensação que eu estava descobrindo. Saiam todos da frente que eu preciso viver isso.
Ai, que delícia.
Lembro que explicava esta sensação de uma maneira tosca assim: sabe as letrinhas verdes da abertura do filme Matrix? Eu consigo ler tudo. Tudo ficou claro e simples. A vida é simples (eu sempre repito esta também). É uma sensação de auto-conhecimento, de calma, de certeza do quanto eu mereço ser feliz e do quanto esta felicidade depende de mim para acontecer. Foi nesta época que eu percebi que sou capaz de tornar qualquer ambiente mais alegre. Que posso fazer quem estiver do meu lado muito feliz. Nunca me senti tão bonita na vida. O cabelo rebelde se acalmou, os olhos têm uma expressão que eu nunca notei antes no retrovisor do carro. Afe. É muita informação, é fresco, é leve. Depois dos 30 eu nunca mais tive medo da idade nem de nada. Acho que viver e fazer 40, 50, 60 não tem mistério nenhum. Fico triste quando vejo mulheres que não entenderam isso.
Tudo também ficou muito mais intenso e impulsivo. Eu quebrei muito mais a cara depois dos 30. Antes ficava me poupando, hoje eu quero mais é sentir tudo o que tenho direito. É ruim mas é bom. Sou mulherzinha para ter medo, agora?
Tem muito mais. O corpo clama por um filho, que não vai rolar agora, falo por mim. Só que o corpo não sabe disso e continua lá, clamando. Menina, aproveita isso com todas as suas energias. E eu não estou falando de pegar todo mundo, não. Essa fase já passou, falo por mim, de novo. Estou falando de qualidade, de escolhas, de amor próprio, de intimidade de um jeito que eu nem sabia que existia. Mas chega. Não quero acabar com as surpresas que a minha amiga, que eu tanto amo, vai encontrar a partir de agora. Lu, brilha. E me conta tu-do.

9 de out de 2008

Baratas ou impagáveis

Recebi duas cantadas desconcertantes nos últimos dias. Elas foram tão na veia que eu me portei como uma ogra e saí pela tangente. Que medo, o que eu digo agora, vou fingir que não entendi. Uma besta, eu sei. Mas eu sou assim.
Isso ficou pipocando na minha cabeça e me fez lembrar de algumas cantadas que foram boas ou péssimas o suficiente para eu me dar ao trabalho de anotar. Olha que beleza:

Eu, usando uma camiseta do Che Guevara, andando na rua. Um cara fala: Eu já gostava do Bob Marley. Agora gosto ainda mais.
Daí em diante eu continuei rolando.

Grupo de amigas comemorando meu aniversário no Rio. Uma delas tascou a desculpa do vou ao banheiro para se livrar de um cara. Ele lançou esta pérola, com sotaque carioquêixs: Pode ir. Mas antes fala o nominho para o marido.

Um cara pergunta: quantos cachos você tem? Se referindo ao meu cabelo. Eu, já fugindo, falei: um monte. E ele: quer mais um?

Eu passeando com meu cachorro e um negão pergunta: De que raça ele é? Eu: Vira-lata. Adotei ano passado. Ele, com olhar sedutor: Quer adotar um Capa-preta? ( ! )

Eu no Carnaval do Rio. Um ator principiante da rede Globo começa a puxar papo comigo e diz que quer me beijar. Eu falo: Imagina, eu nem te conheço, não sei seu nome nem o que você faz (mentira). Ele: Meu nome é fulano, sou ator. Eu: Ah, você é ator? Então é beijo técnico. Aí tudo bem.

E para fechar, uma que o autor conta por aí, com orgulho. Ele pergunta para uma mina, no meio de uma micareta: Você faz cocô? Ela responde, chocada: Aiiiii, faço. Por que? Ele, com sorriso maroto: Porque não parece.

2 de out de 2008

Velhinhas Safadas

Tem coisa mais meiga e frágil do que uma velhinha? Eu também pensava que não, mas ando fazendo umas projeções e já profetizei: vem aí uma geração de velhinhas safadas, da qual eu farei parte, sem sombra de dúvidas. Qualquer criança sabe que não existe bom velhinho. Mas se você achava que ser tarado era função apenas de velhinhos que jogam dominó, vá se preparando. Eu e um monte de gente que eu conheço vamos ser velhinhas porretas, que vão passar a mão na bunda da galera. Certeza. Quem viver mais umas 3 ou 4 décadas verá.
Eu já decidi faz tempo que terei cabelo lilás e vou morar no Leblon. Vou caminhar no calçadão com aquelas passadas rápidas que só as velhinhas sabem dar e vou me aproveitar de todos os jovens jeitosinhos que tiverem a boa vontade de carregar minhas sacolas, abrirem portas e me cederem os acentos. Que cara de espanto é essa, meu filho? Eu estou morta, por acaso?
O mundo já tem muitas velhinhas safadas. Elas ainda são discretas, mas ô se existem. E para provar, vou escrever aqui a letra de uma música que eu amo do CD Tudo Azul, da Velha Guarda da Portela. Entre um e outro sambinha fofo e ingênuo, começa “Você me abandonou”, cantada por um coro de velhinhas com vozes tão doces. Só que elas cantam esta que é a mais malvada, vingativa e genial de todas as músicas do CD.
Muito, mas muito cuidado com velhinhas que usam brincos de pérolas e cantam músicas como esta com tanta sinceridade.

Você me abandou / Ô, ô eu não vou chorar / Mas hei de me vingar / Não vou te ferir / Eu não vou te envenenar / O castigo que eu vou te dar é o desprezo / Eu te mato devagar

Cara, que medo que eu tenho delas. Adoro.