
Desde que cresci e não fui mais obrigada a ir à igreja e beijar a estátua de Jesus morto (trauma nº 7 da vida), passei a achar que Páscoa era só um feriadão em que a gente viaja, come camarão até morrer e ganha chocolate. Isso mudou quando eu soube como eles comemoram na casa do Beto. Aquilo sim é que é Páscoa.
Beto é meu amigo de Porto Alegre. Ele faz parte das pessoas mais legais do mundo nascidas em Porto Alegre: as que cresceram no bairro de Ipanema. Páscoa na casa dos Schmidt não é brincadeira para criancinhas que acreditam em coelhinhos. Exige toda uma logística, preparo físico e nervos de aço. Eles levam muito a sério a tradição de esconder os ninhos. Fazem isso com dedicação e maestria, a ponto dos chocolates correrem o risco de não serem encontrados antes do prazo de validade vencer. A não ser que o presenteado desista, diga que não quer mais brincar e quer os chocolates ainda no mês de abril. Mas isso, para os Schmidt, seria uma tremenda demonstração de fraqueza de caráter. Lutar sempre, retroceder nunca, render-se jamais.
Há alguns anos, a TV começou a apresentar problemas de funcionamento exatamente na época da Páscoa. Tremendo vacilo do irmão do Beto, que esperou todo mundo sair logo depois do carnaval (40 dias antes!!!), desparafusou a TV de 29 polegadas e escondeu os chocolates lá dentro. Infelizmente, neste caso, o aparelho denunciou o amadorismo na escolha do esconderijo.
O importante é não deixar vestígios. Foi nisso que o próprio Beto pensou quando escondeu o ninho da senhora sua mãe enterrado no quintal, dentro de uma caixa e vários sacos de plástico. Depois de abrir e fechar um buraco de 7 palmos, ele moqueou a vegetação e a terra para que ninguém suspeitasse que havia chocolate por ali. Um cadáver, talvez. Chocolate, nunca.
A mãe do Beto se inspirou no artifício de embrulhar tudo com várias camadas de plástico e, no ano seguinte, pensou no esconderijo quase perfeito. Pelo menos o que levou mais tempo para ser desvendado. Subiu no telhado e colocou o ninho submerso dentro da caixa d’água da casa. Em outro ano eles aproveitaram o fato do inverno ter chegado mais cedo e já terem providenciado uma pilha de lenha quase da altura da casa (que o IBAMA não saiba, mas todo mundo tem uma pilha de lenha dessas lá no RS) e esconderam o ninho lá no meio.
Ontem eu perguntei para o Beto como tinha sido a Páscoa deste ano. A resposta foi uma comprovação de que a tradição vai continuar por gerações. “Foi legal. Sacaneei o meu filho. Escondi o ninho dele em cima de um muro de mais ou menos 2 metros. Bem alto para um moleque de 4 anos”.
Feliz Páscoa para você também.