6 de jun de 2017

Exumação de amizade

Ajudar a encontrar pessoas que você não vê há um tempão é uma das melhores partes das redes sociais. Mas também um dos maiores desserviços que elas trouxeram. Antes tudo era mais simples: você tinha amigos de infância, de escola, de faculdade, do trabalho, a vida andava, alguns permaneciam e a tropa ficava para trás. Evaporava da sua memória e abria espaço para ocorrências mais relevantes. Você até lembrava às vezes daquele cara engraçado da sua sala, ficava sabendo num churrasco por onde anda aquela colega de trabalho. Mas a nostalgia estava muito mais para curiosidade do que para saudade. O tempo tinha uma espécie de sabedoria aleatória que simplesmente expelia essa turma da linha da sua vida, sem que você precisasse escolher quem. Só acontecia.
Agora não tem mais essa. Um dia chega um convite na sua rede social. Pelo nome, você não sabe quem é. Precisa clicar, ver fotos, dar zoom para trazer o ser que tinha ficado lá longe. Dois ou três amigos em comum são o único indício de que você um dia conheceu aquela pessoa. Às vezes ela nem mudou tanto assim mas sua memória seletiva tinha feito esse favor para você. A educação manda você aceitar o convite. E, a partir daí, tudo o que o algorítimo te obriga a ver só confirma que a criatura deveria ter ficado lá mesmo onde estava. Você tenta deixar aquele campo infértil ali, sem interagir, sem se manifestar. Mas um dia a oferenda que Iemanjá devolveu decide expressar seu desagrado sobre algo que você postou. Você responde ao que claramente foi uma provocação, mas tudo bem, você bem que gosta de provocações e de opiniões diferentes. O ente não querido não entende sua resposta. Você precisa esclarecer que estava sendo irônica. Com preguiça. Contrariada. Porque precisar explicar ironia, convenhamos. Entre esta amizade e a piada, você não tem a menor dúvida do que prefere perder. Mas o organismo que nem deveria mais constar não entende de novo. Você tenta outra vez e, sabe o que mais? Chega de redes sociais.
Dias depois você faz um novo login e vê que o indivíduo dos confins ainda tentou continuar a discussão que você não precisava ter. O jeito é não mover um músculo e torcer para que seja um fato isolado. Mas o que nunca fez falta volta e faz você passar por aborrecimentos que, pela ordem natural das coisas, tinha tudo para evitar.
Deixar gente que você mal lembra para lá. Eu gostaria de ter esse simples direito de volta.

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