
Se você parar para pensar, ouvir a voz do coração é uma grande incoerência. Ok, eu sei que ouvir o coração é justamente não parar para pensar. Mas não faz sentido.
Primeiro porque o coração passa a vida inteira ali dentro, fazendo o mesmo movimento e a mesma coisa o tempo todo. A única coisa que varia é a velocidade. Ouvir o coração é o equivalente a ouvir o funcionário da linha de montagem de uma fábrica. China, você que passa o dia inteiro encaixando braço de boneca, me fala uma coisa, o que você acha que eu devo fazer com essa relação? Invisto? Desencano? O coração, com toda aquela experiência de vida vai fazer o que? Chutar uma das duas respostas. E a chance dele acertar é 50% - 50%. Loteria, babe.
Depois tem outro problema: coração não fala, batuca. Você expõe suas grandes dúvidas existenciais e faz o que? Se você acha que eu devo dar uma chance para esse cara bate 112 vezes por minuto. Se acha que não, bate 80. Mas bate direito senão eu não consigo contar. Ridículo.
Tem mais. The Little Heart passa o dia inteiro batendo. Você conhece estetoscópio? Já ouviu o barulho que um coração faz enquanto bate? Quem é que garante que ele está ouvindo as suas perguntas? Troco meu marido por um amante gostoso mas canalha? Ele responde, do meio da bateria da Mocidade Indepentende: Siiiiiiiiiiiimmm!!! É por isso que as grandes cagadas acontecem e se repetem por aí.
Se o coração tivesse todas as respostas a gente não fazia mapa astral. Ia ao cardiologista. Além dos pacientes de sempre, o InCor estaria lotado de gente indecisa. Os transplantados estariam felizes ouvindo o coração dos outros. Afinal, uma segunda opinião é sempre bem-vinda. Doutor, meu coração não está me dando nenhuma resposta decente. Será que a gente pode tentar o desfibrilador? (sempre quis escrever esta palavra).
Por que, em vez do coração, a gente não ouve o estômago? Se der friozinho quando você encontrar o cara, a resposta é sim, brilha. Eu, por exemplo, não tenho estômago para muita gente que conheço. Acho esta sensação bem mais confiável do que um coração involuntário querendo me dizer de quem gostar.
Como se não bastasse, o coração te expõe, te delata. Você beija o cara e ele percebe que o seu coração está fazendo um solo de bateria a la John Bonham. Não dá para pagar de blasé desse jeito.
Nosso coração é incoerente, ridículo, pouco confiável e escandaloso. Mas não tem nada mais fantástico do que deixar a vida descompassada, só no ritmo desse imbecil.